Existem filmes que te deixam triste, e outros que te fazem triste. A Ghost Story, do diretor americano David Lowery, pode muito bem se encaixar na segunda opção, dependendo do modo pelo qual é assistido. É um filme diferente em diversos sentidos, com um ritmo extremamente lento e poucos diálogos, o que exige uma atenção especial para que não fique "entediante" aos olhos do espectador. E mesmo que aqui se gaste 2 ou 5 minutos num take de alguém comendo torta, ou do casal interpretado por Casey Affleck e Rooney Mara simplesmente deitado na cama, a construção destas cenas são especialmente importantes para o contexto do longa, e dizem mais do que as palavras. Já dizia o gênio Alfred Hitchcok, "não me fale, me mostre". Lowery trabalha muito bem com o silêncio, mas quando os personagens abrem a boca, o roteiro é ainda melhor.

Cada diálogo encaminha a história para outro ponto, aumentando cada vez mais a carga dramática e criando uma aura de lucidez num filme que trabalha tanto com metáforas. Retomando ao que foi dito no começo, A Ghost Story é carregado de melancolia e tristeza, com um tom até depressivo, mas o que transborda à audiência não é o sentimento de tristeza POR um personagem, mas o sentimento de tristeza DE um personagem. Casey Affleck leva toda essa tristeza em seu personagem, que aos poucos começa a entender a verdade das coisas. O sentimento de mágoa não é pelo que aconteceu com ele, ou com mais alguém, mas por todo o contexto - a atmosfera e a compreensão das situações trazem à tona toda essa melancolia.

O maior diálogo do filme (que é praticamente um monólogo) é totalmente niilista e consegue botar até a pessoa mais positiva pra baixo - novamente o contexto : uma festa com bebidas e música pop, e um sujeito falando com todos argumentos filosóficos e científicos de que nada do que fazemos em vida é importante. Excelente !

O protagonista em sua versão de fantasma até então não se dava conta disso, e simplesmente não queria aceitar que outras pessoas estavam sendo felizes e tendo suas vidas num lugar onde uma vez foi o seu lar. Essa ideia de que a vida continua depois da morte já foi mostrada em diversos outros filmes, séries e livros, mas nunca pela visão do morto. Ok, as pessoas continuam a viver, mas e o que aconteceu antes ? Nada daquilo foi importante ? A cena em que uma escavadeira derruba a casa com toda facilidade do mundo se torna emblemática por que acontece depois de que todos esses conceitos já foram apresentados; a casa era importante para um casal, depois para uma família, e depois para um grupo de amigos, mas em determinado momento ela não é mais relevante pra ninguém, e é jogada ao chão sem conversa.

Assistindo ao filme, é curioso pensar que durante os 87 minutos de película, é muito discutido a relatividade e irrelevância da vida terrena, e de que nada dura para sempre - ao mesmo tempo em que há um fantasma alheio ao espaço-tempo, sempre presente ao lado da mulher, e presenciando a vida em torno daquela casa indo do futuro longínquo até o passado ancestral. É possível sentir que se trata de algo totalmente pessoal do diretor, um drama próprio do qual nunca saberemos o verdadeiro sentido, mas que podemos buscar a verdade canalizada em cada um. Um longa atemporal (em diversos sentidos), do qual não dá para sair alheio.

Fechar Menu