Desde sempre os personagens da turma do Ursinho Pooh possuem uma subliminaridade que vai além da compreensão infantil. Por trás dos animais fofinhos e coloridos, existem temas do cotidiano que assolam a vida de muitos adultos, retratados em algo que nos lembra a infância.

Leitão é medroso e não consegue encarar o inesperado ou desconhecido; Bisonho é triste, e não deseja nem muito menos tenta sair de sua tristeza, já está conformado com ela; Tigrão se diz corajoso e valente, mas por causa disso acaba sendo atrapalhado e irracional; e Pooh é ansioso, inseguro, e melancólico.

Essas características ficam bem evidentes no filme que estreou essa semana no Brasil, Christopher Robin : Um Reencontro Inesperado, do diretor Marc Foster. O longa é uma espécie de releitura com continuação dos tão populares contos e animações do Winnie-the-Pooh, nosso querido Ursinho. Marc Foster traz à tela os animaizinhos com traços bem realistas de pelúcia, desgastados e sujos pelo tempo, e retira deles às cores saltantes das quais estávamos acostumados. Vemos o universo do Bosque dos Cem Acres como um lugar acolhedor, mas ao mesmo tempo com seus perigos - os Efalantes, por exemplo. Porém, nada comparado com o mundo real.

Da infância à fase adulta, acompanhamos Christopher Robin se tornar aquilo que todos esperavam dele. Em uma época pós-guerra, Christopher nunca se perguntou o que realmente queria para sua vida, e simplesmente aceita o que lhe foi imposto pelos pais. Acaba então preso num trabalho que lhe dá bom retorno financeiro e ascensão social, porém retira sua vida social e familiar. De que adiantou ?

Volta à tona então Pooh (anteriormente chamado de Puff no Brasil), com seus olhos cabisbaixos e voz doce; sempre com fome e com ideias inocentes para ajudar Christopher. O próprio garoto que uma vez foi tão amigo dos animais, já não se reconhece mais, não é mais o mesmo. É a parte da existência em que sentimos que tudo que aconteceu no passado foi em uma outra vida. Suas ações antigas já não combinam com as atuais, suas decisões não seriam as mesmas se tivessem que ser feitas hoje, tudo mudou. Porém Pooh está lá para lembrá-lo : seus olhos são os mesmo. Seu nome continua o mesmo. Por que se sente tão diferente ? O questionamento transmite uma pureza, uma sensação de ''quem dera as coisas fossem tão simples''. A vida adulta não é fácil. Mas, deixá-la te consumir não facilitará as coisas.

Pooh, atrapalhado do jeito que é, está sempre querendo ajudar seus amigos, da maneira que seja, como um dia já foi Christopher Robin. Ele, agora crescido, se deixa levar pela razão, ignora a família para focar no trabalho, e não tem espaço para seguir as emoções. Temos então dois personagens melancólicos, que sentem falta do passado e sofrem por algo que não possuem mais. Mas apenas um deles sabe disso.

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