"BVS esta longe de ser apenas um confronto entre heróis."

A obra de Zack Snyder é um retrato de uma sociedade polarizada, que ainda acredita em seus "salvadores"

A simbologia dos heróis como um arquétipo de uma qualidade sobre-humana é algo que testemunhamos antes das primeiras representações mitológicas na Grécia antiga. A presença de um ser que represente algum individuo ou causa, seja ele vivo ou ficcional, atrelado a sua habilidade superior é determinante para ser chamado de "herói" e até, ser louvado como um.

A capacidade comum dentre esses representantes é o poder, seja; físico, mental, tecnológico, politico ou de influencia, a sua manifestação entre eles os tornam heróis, mas diante deste processo a famosa reflexão do filosofo Lord Acton sobre o poder, que diz; "O poder tende a corromper [...] de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus" revela um nuance que desconstrói essa figura de um ser puro e absoluto, do herói, e bom, mesmo não sendo uma verdade concreta ou uma inverdade sobre os detentores do poder é admissível que todos eles estão sujeitos a se corromper.

Mas quem é o vilão ou o mocinho da historia? Assim como o filme do Duncan Jones, 'Warcraft: Guerra Entre Dois Mundos' a perspectiva entre um lado e o outro apontam os erros na mesma medidas que os acertos, humanos e orcs são opostos de uma mesma moeda, ambos querendo a sobrevivência de seu povo e aqueles que os seguem, mas enquanto seus representantes procuram encontrar motivos para guerra dentre os lados, aqueles que tentam reproduzir um ideal democrático e escolher o melhor para ambas as raças se transformam em coadjuvantes e se ofuscam no meio do confronto.  

"A ponta de lança"

No último ato de o "Homem de Aço", a consequência da luta entre Superman e o capitão Zod foi a "ponta da lança", que estimulou algo pior para a personificação de esperança de Kal-El na Terra, o confronto que deixou mais de centenas de pessoas destruídas e com risco de vida, questionou a presença do alienígena no planta, que por fim, serviu de motivação para Bruce Wayne em um confronto posterior em "Batman vs Superman: A Origem da Justiça".

"Uma origem para qual justiça?"

Não foi uma tarefa fácil para o diretor Zack Snyder adaptar o embate entre os clássicos personagens dos quadrinhos, mesmo com a disposição de seus clássicos confrontos, semelhante a obra de Duncan Jones, Snyder optou por algo diferente, motivações que surpreenderiam os antigos fãs tanto quanto os novos, e que dentre os dois opostos nenhum fosse de fato o grande vilão da historia.

A ponta de lança que me refiro é o estimulo, não de fato uma personificação do vilão por parte dos dois personagens, no filme Superman é retratado como o herói incompreendido e Batman como o herói vingativo, um salvou o planeta em troca de uma cidade, o outro salva a cidade em troca de bandidos presos, mortos e torturados, o fato de Batman sempre agir caçando os bandidos e nunca acabar com o crime em Gotham, estimula Clark, o fato de uma cidade inteira ser despedaçada por conta de uma briga entre alienígenas, estimula Bruce.

E no meio deste confronto, o papel mais importante com certeza é de Lex Luthor, Luthor é a lenha do embate, enquanto os dois apenas tem a consciência de coexistirem com desavenças, Lex fará com que essas desavenças virem motivações para o confronto, utilizando-se principalmente das "armas da era digital", capazes de persuadir uma massa e até idealizar um vilão nela, a mídia, as noticias falsas e até um apelo familiar, serão as artimanhas do egocêntrico, no longa.

O quarto personagem é o resultado disso, nascido da guerra e durante o confronto dos dois heróis, o Apocalipse, é uma criação de Luthor, que não tem uma consciência, apenas cede por destruição.

A corrida presidencial

2018, as eleições para o primeiro turno já ocorreram, os candidatos apresentaram, debateram, questionaram as suas propostas, mas entre eles qual foi o destaque ou a evidencia que proporcionaram nas redes sociais e na televisão? Qual foi o foco da campanha, não dos candidatos, mas daqueles que os evidenciaram? 

Sobrou dentre eles, exatamente aquilo que a mídia tanto falou e repudiou, sobrou as personificações, e novamente os dois lados da moeda, Bolsonaro e Haddad.

O confronto entre os de polos, direita e esquerda, que fora fomentado durante anos e anos, está polarizando e criando a figura de heróis e "salvadores" nos brasileiros, a população cansada da corrupção e da velha politica, assim como o repudio do povo contra o Superman, criam a fé no oposto, e Bolsonaro lidera, da mesma forma que o Batman se torna uma opção, o também oposto de Superman e Wayne demonstra ser algo difundido, que resolve os problemas no bate e pronto, alguém que as pessoas acreditam cegamente, mas não tem certeza que ele vai ser de fato a diferença, apenas que irá mudar o que há de ruim.

A mídia vai fazer o trabalho de Luthor, confundir e persuadir e fazer com que os dois "heróis" saiam para o segundo turno, com tanta informação, noticia falsa e apelos familiares, trara o confronto a tona na politica e a conquista do povo para um lado e para o outro do extremo, deixando de canto o "herói" que não se prende a discursos midiáticos e apresente propostas inteligentes visando o bem da maioria.

Tendo ciência de um candidato melhor, Lex irá fazer de tudo para ofuscá-lo, pois não quer sua intervenção no confronto e na criação final, da mesma forma que Durotan, em Warcraft, foi ofuscado, pois não se prendeu a uma personificação ou a uma ideia de ser um salvador, quis realmente trazer boas ideias, que no fim foram reduzidas a polarização da população que apenas enxergava o confronto e quem era o melhor da ocasião.

"Acha surpreendente que o homem mais poderoso desse planeta seja uma figura controversa"

"Nós que povoamos esse planeta buscamos um salvador"

"O mundo ficou tão surpreso com o que ele pode fazer, que ninguém se perguntou o que ele deve fazer"

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