Quando falamos de arte, é normal pensar no tradicional : pintura, cinema, música, esculturas. Mas nem toda arte é palpável. Nem toda arte fica para a posterioridade, nem toda arte pode ser vista, consumida, apreciada para sempre.
Nem todo pintor é artista, nem todo diretor de cinema é artista. Oras, o que torna alguém um artista, então ? Veja bem. Pode-se dizer que Transfomers tem a mesma importância artística e histórica de O Poderoso Chefão ? Óbvio que não. O que faz a arte é a maneira como ela afeta o ambiente, o espaço e o tempo ao redor dela. A sensibilidade que ela possui.
Um professor, por exemplo. Você acha que é fácil ensinar uma criança a ler ? Uma criança que há pouco tempo atrás só sabia chorar, pedir por comida e fazer suas necessidades fisiológicas ? Acha que é fácil transformar um protótipo de gente em cidadão, com ações que causarão efeito na sociedade em que vive ? Um bom professor também é um artista. Ainda mais quando se educa um ser que não consegue se comunicar, e não estamos mais falando de crianças.
Cavalos foram tão importantes para a evolução humana quanto o fogo e a roda. Os equinos estão ao nosso lado desde os tempos mais primórdios, e foram essenciais para ajuda nas colheitas, caça de outros animais, e até mesmo em guerras, como já vimos diversas vezes. Esses foram outros tempos, porém, muito do modo que se trata esses animais atualmente, ainda restou da época em que precisávamos deles assim como precisamos de pernas extras.
Hoje, não há mais necessidade de tratá-los como ferramentas, tendo em vista toda tecnologia a qual estamos dispostos. Eles foram trocados pelos carros, pelas colheitadeiras, e pelos robôs de mão de obra. Se isso tudo ocorreu, então por que ainda são tratados como servos ? Atualmente vemos os equinos serem usados como atrações esportivas e até mesmo tratamento terapêutico para pessoas com deficiências físicas e mentais.

Mudando a perspectiva

3.200 anos depois de seu surgimento na Mesopotânia, embocaduras de bridão  ainda são usadas. Trata-se de um pedaço de ferro que é colocado na boca dos cavalos, para passar ordens ao animal. Essa é a prática mais comum na criação de cavalos, algo enraizado na cabeça de adestradores mundo afora. Porém, nos últimos anos tem surgido um movimento de 'revolta', assim digamos, ao uso de embocaduras. Se chama 'bitless', e insiste no adestramento de cavalos sem embocadura, baseando-se na confiança entre o animal e seu treinador. Esqueça os ferros e bridões machucando os animais.
Um dos nomes que mais chama atenção no país hoje levantando essa bandeira de adestramento em liberdade, é o de Bianca Zério. Herdando da mãe o amor por animais como uma marca de nascença ou pinta no corpo, Bianca, de 19 anos, cresceu entre os animais e aprendeu a respeitá-los desde cedo. Hoje, dá aulas e tem até uma loja focada em aparelhos bitless com a família. Mas, como todo começo, não foi fácil se adaptar :
'' Equitar com a embocadura nos pareceu negativo devido a reação de nossos cavalos. Passamos então a estudar mais sobre as ações e os efeitos das embocaduras e nos espantamos com o que descobrimos. Primeiro busquei reduzir o uso das rédeas e focar na comunicação através da postura e das ajudas das pernas. A partir de então todos os cavalos só foram equitados com os cabrestos dentro da propriedade, quando percebi que a comunicação já estava clara iniciei o trabalho na área externa a propriedade. '' diz ela.
Mas como fazer outras pessoas se adaptarem a isso ? Mudar um sistema milenar e enraizado na cabeça dos treinadores não é uma tarefa fácil, mas que com persistência, pode ser bem concluída, segundo a própria Bianca :
'' Inicialmente muitas pessoas que conhecíamos se posicionaram contra, mas aos poucos foram se convencendo ao perceber os resultados. Os cavalos passaram a demonstrar uma atitude e postura mais relaxada! Um de meus cavalos disparava com frequência e depois de adapta-lo ao bitless isso nunca mais se repetiu. O que é importante ao demonstrar uma nova visão a pessoas mais 'conservadoras' é posiciona-lá como uma alternativa e apresentar os resultados positivos que se obtém com ela na prática."
Discutimos o que é arte e chegamos a conclusão de que arte é o que muda o ambiente ao redor. Arte, num todo, é sensibilidade, é amor. No cinema e teatro, é comum criticar algo por falta de profundidade ou emoção. Porém, todos se esquecem que transmitir emoção não é algo simples, e nem todos diretores de obras estão dispostos a se abrir completamente ao que estão produzindo.
Na equitação a tarefa é a mesma, ainda mais quando se espera confiança entre cavalo e humano. Confiança é outra coisa que não se ganha de uma hora para outra, leva tempo, e acima de tudo, vontade de ambas as partes.
''Eu procuro ajudar as pessoas a se abrirem verdadeiramente ao que os animais têm a oferecer, pois o amor é 'uma via de mão dupla'. Um dos grandes tesouros da vida é aprender a amar e ser amado. O primeiro passo é compreendê-lo [cavalo] como um ser senciente, o segundo é permitir-se estar vulneral, 'desarmado', aberto ao que lhe for proposto pelo animal sem exigir dele aquilo que você deseja. O resto acontece de forma natural devido à natureza verdadeira e afetuosa dos animais.''

Escolhas

Jovem, as pressões de uma vindoura vida adulta levaram Bianca à pensar sobre o que queria fazer da vida, e ela tomou a melhor solução que podia : fazer o que ama, ao invés de fazer algo apenas por obrigação :
''Em 2016 ao estudar cada vez mais e me dedicar aos treinos dos cavalos, decidi que levaria esta minha paixão como profissão. Para poder sempre estar cercada por aqueles que amo. ''
 
Como já citado anteriormente, ensinar não é fácil. Fácil é desistir, e se deixar levar pelas cobranças e pelos fracassos cometidos. Mas assim como todo artista, Bianca busca inspiração em sua própria arte, lembrando-se do que por que começou e os motivos para fazer isso. Quando algo não dá resultado nos treinos, ou parece levar muito mais tempo do que o planejado, a treinadora tem o seguinte pensamento :
'' Nos dias em que me sinto decepcionada e insatisfeita, procuro afastar os pensamentos negativos. Não é fácil, mas precisa ser feito! Procuro ver fotos antigas e me lembrar de tudo o que superamos (os cavalos também), para alcançar o que temos agora. Relembrar o porque iniciei esta jornada: melhorar a qualidade de vida e trazer a eles divertimento com o trabalho. E principalmente o que me ajuda são os próprios animais, me motivando com o amor deles a melhorar a cada dia. Sou extremamente grata a tudo que eles me ensinam e compartilham comigo.''
Ainda há muito para ser feito nesse ramo, nessa arte. Muitas pessoas a se conscientizar, muitos animais a serem salvos dos maus tratos, e muito caminho para a jovem Bianca percorrer.
Se arte é mudar o ambiente ao redor, ela já conseguiu isso (este que vos escreve é um exemplo). Se os cavalos já não são mais apenas mão de obra, é hora de tratá-los melhor. Desafios não faltarão, mas aí é que o artista precisa mostrar o motivo de ser o que é.

Agradecimentos super especiais à Bianca Zério, que aceitou conversar conosco e fez com que esse artigo se tornasse possível.

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