O Mau Exemplo de Cameron Post (2018): cura gay na prática

O Mau Exemplo de Cameron Post (2018): cura gay na prática

“EU TENHO NOJO DE MIM MESMA”.

O começo de “O Mau Exemplo de Cameron Post” é ágil e suficiente para criar as camadas de drama que seguirão durante toda a trama : o líder do grupo de estudos religiosos fala sobre as artimanhas do “maligno”, e tudo que esse ser coloca em nossas vidas vem disfarçado de algo ‘legal’, mas com a verdadeira intenção de destruir. Ao mesmo tempo em que essa voz de fundo vai dando seu ‘sermão’, a edição mescla cuidadosamente cenas do relacionamento lésbico entre as amigas Cameron (Chloe Moretz) e Coley (Quinn Sheppard).

Cameron tem seu romance descoberto da pior maneira possível, e é mandada para um centro evangélico que fornece a “cura gay”. Nesse meio tempo, não parece haver nenhuma espécie de resistência por parte da protagonista, e ela apenas aceita aquilo como um erro pelo qual precisa lidar com as consequências.

Certa vez alguém disse que nenhuma pessoa no mundo tem pensamentos próprios; tudo que fazemos e pensamos são produtos da sociedade ao redor, o único trabalho que temos é adaptar essa educação ao nosso modo de vida. O filme dirigido por Desiree Akhavan tem como plot justamente a (re) descoberta dos pensamentos próprias da personagem principal, deixando de ser produto de um tipo de sociedade para se tornar o mais próximo daquilo que gostaria de ser.

O ano é 1993, e a sociedade é mais preconceituosa e odiosa do que é hoje. Cameron não reage muito à sua ‘pena’ porque considera o que faz (gostar de uma pessoa do mesmo sexo) algo errado. Ao chegar nesse recanto de ‘cura’, encontra personalidades que também passaram pelo mesmo processo, mas que lidam de formas totalmente diferentes, mas com o fato em comum de que todos estão sofrendo. Uns piram, outros tentam aceitar, e alguns relutam até o fim para manterem-se e serem aceitos como são. Cameron faz amigos, Adam e Jane, que estão lá à força e fazem de tudo para passarem nos testes de homessexualidade sem deixarem de lado a verdade dentro de si. A personagem de Chloe Moretz aos poucos vai aderindo essa mentalidade e passa a confrontar os responsáveis e os adeptos daquela loucura ridícula.

Do outro lado temos os ‘tutores’, religiosos extremistas que não são ridicularizados no roteiro, mas apresentados como pessoas totalmente convictas na missão de interferir e alterar a personalidade daqueles que estão ali precisando de uma cura – como se amar fosse uma doença. É interessante a escolha da diretora por não focar muito no passado distante das personagens, limitando-se apenas a menções e curtos flashbacks. A linguagem cinematográfica justifica-se como um contra-argumento às ideais defendidas pelos religiosos do filme de que a atração pelo mesmo sexo não é algo natural, mas sim um produto de traumas passados – o tal do Iceberg, aonde ser gay é só a ponta.

Tratando-se de um filme curto e que ainda teria muito mais coisas para serem exploradas, “O Mau Exemplo de Cameron Post” convence pelos personagens e por todo o contexto. Fala-se muito de abuso psicológico, e a cura gay aqui fornecida mais destrói do que ajuda. Um relato cuidadoso, sem demonizar nenhum dos lados nem criar caricaturas, mas sim oferecendo pontos de vista para uma discussão. Talvez por isso ao final do filme não tenha-se o peso dramático necessário, já que a crítica não é por pouco imparcial. Ainda assim, não é apenas um “filme do tema”, e tem seus méritos estruturais e cinematográficos, de uma jovem diretora que vêm conquistando espaço na indústria.

Gabriel Lira

Apenas um cara tentando fazer a coisa certa.
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