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O Oscar é importante pra quem?

A cerimônia de entrega do Oscar se aproxima, e eu, como todo cineasta sonhador, me peguei pensando em como seria (será) meu discurso se um dia (quando) eu conquistar um daqueles homenzinhos dourados. Tarefa difícil essa, ainda mais se você não produzir seus filmes ou documentários DENTRO dos Estados Unidos. Fato é que a premiação é voltada para a indústria de lá, já que é feita pela academia cinematográfica DE LÁ; que apesar de possuir votantes de várias etnias, não deixa de ser um troféu americano.

Tanto que existe uma categoria específica pra filmes estrangeiros, e é a porta de entrada mais visada pelos cineastas around the world. Muito se tem questionado sobre o valor do Oscar nos últimos anos, devido as inconveniências da premiação (por exemplo a confusão de La La Land e Moonlight em 2017) e mais ainda dos vencedores e indicados SUPER questionáveis (como Shakespeare Apaixonado ter ganhado de Além da Linha Vermelha e Resgate do Soldado Ryan na categoria Melhor Filme). O Oscar se tornou uma grande confraternização de firma pra quem trabalha em Hollywood, e na maioria das vezes, o melhor filme MESMO nunca ganha. Sem falar nas acusações e rumores de suborno para os votantes, e a supremacia de determinados estúdios todos os anos (cof cof disney).

Tudo isso (e muito mais) contribuiu para criar uma imagem deturpada (e talvez verdadeira) do Oscar nos últimos anos, fazendo o espectador pensar duas vezes antes de virar a madrugada torcendo para os filmes que foi forçado à assistir via pirataria (já que os longas indicados ao Oscar, pelo menos no Brasil, estreiam no cinema em datas próximas ou depois que a premiação já passou; e ficam pouco tempo em cartaz – pelo menos os que conseguem ser exibidos de maneira oficial). 

Com estes fatos em vista, pra quem o Oscar importa, afinal ? É comum vermos vencedores chegarem na hora de receber o prêmio e simplesmente lerem um discurso escrito naquele papelzinho amassado que o Faustão sempre usa; ou falarem sem emoção aparente de ter recebido o prêmio (tipo o Di Caprio em 2016, provavelmente PUTO por ter sido consagrado por uma atuação que não é nem de longe a sua melhor, e acabou fazendo um discurso de ativismo ambiental). Cada um reage de uma maneira. Pra alguns, pode ser só mais um prêmio, e para outros, o ápice da carreira. Foi o que aconteceu com Guillermo Del Toro no Oscar do ano passado. Del Toro já era uma figura icônica de Hollywood, e mais um gênio da leva de diretores mexicanos – os chamados Los Tres Amigos (Inãritu, Del Toro e Cuáron); todos os anos na indústria cinematográfica o fizeram criar uma identidde visual muito forte, e sinônimo de qualidade em seus longas. Só depois de Labirinto do Fauno, Hellboy, Círculo de Fogo e A Colina Escarlate, Del Toro foi premiado como Melhor Diretor por A Forma da Água (mais uma vez um grande artista se consagrando por aquele que não é seu melhor trabalho).

Na ocasião, Del Toro fez um discurso emocionadíssimo e exaltou a importância da perseverança e dos sonhos, além de elogiar a arte em si. Mais um mexicano vencedor do Oscar – nos últimos 5 anos, 4 vezes a categoria Melhor Diretor foi vencida por um Mexicano, sempre um dos Los Tres Amigos. No ano passado,  o vencedor da categoria ‘Melhor Filme Estrangeiro’ foi Una Mujer Fantastica, filme dos nossos colegas de continente chilenos. Mais próximos de nós, os argentinos, ganharam 7 estatuetas em 17 indicações ao longo dos anos. E o Brasil ? Bom, desde o surgimento do Oscar, os filmes produzidos nas terras do Pau-Brasil receberam 7 indicações, em 6 ocasiões. O que mais teve chances foi Cidade de Deus (2004), considerado por muitos o melhor filme brasileiro de todos os tempos; e que antes do Oscar foi indicado ao Globo de Ouro. A indicação mais recente foi em 2016, ‘O Menino e o Mundo’ concorreu na categoria ‘Melhor Filme de Animação’, mas concorreu com a Disney, aí complica, né ? 

Todos os anos, o Brasil tenta mandar filmes para concorrer à premiação, mas não acabam passando nem da primeira lista – este ano o escolhido foi O Grande Circo Místico, e ano passado Bingo : O Rei das Manhãs. Sim, estes foram os filmes que iriam nos representar na maior premiação de cinema do mundo. Talvez a culpa seja do conselho nacional, a galera que escolhe quais filmes enviar, e na maioria das vezes só escolhe filmes que deram lucro no circuito comercial ou que tenham grandes investidores (cof cof Globo). Então é normal lermos por aí que algum filme brasileiro ganhou algum prêmio em festivais importantes como Cannes, Veneza, Toronto – quase todo ano ganhamos alguma coisa por esses cantos – e nunca sairmos vencedores no Oscar. Para estes festivais citados, são as próprias distribuidoras e as vezes os próprios produtores dos filmes que os enviam para concorrer, sem precisar de uma decisão de algum órgão governamental o cultural. 

Basicamente, quando tínhamos chances de ganhar, não ganhamos por que né, é o Oscar; e nas outras vezes, só mandamos filmes que não são nem os melhores do bairro, quem dirá do país. Sempre que chega fevereiro, fazemos nossos bolões, nossas torcidas, mas a verdadeira esperança de um prêmio que pode alavancar de vez a indústria cultural e dar mais moral pra quem faz cinema no Brasil, fica sempre pra próxima ocasião.

E o pior é que a culpa nem é dos filmes. 

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