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Cultura Pop do mundo.

Por quê os meus ídolos estão morrendo?

Nesse mês de junho eu completei 17 anos. Dezessete é um número cheio de significados, se parar pra ver. Dezessete era a idade do Pelé quando marcou seu primeiro gol numa Copa do Mundo. Dezessete também é a idade do maluco do Lil Pump, que nesses poucos anos já usou mais drogas e ganhou mais dinheiro do que você vai conseguir na sua vida toda. 17 (Seventeen) é o nome do primeiro álbum de estúdio do XXXTentacion, um artista que eu posso falar com autoridade que acompanhei a carreira do início ao fim.

Fui descobrir o X no começo de 2017, com a música ”Look at Me!”, repleta de apologias à violência pela qual o artista se tornou famoso. Naquela época, pouco se sabia sobre a persona de XXX, e tudo que eu conhecia se baseava em boatos. Mais tarde encontrei notícias sobre agressões à sua ex-namorada supostamente grávida, e mais uma tonelada de merdas que o trapper havia feito, que o levaram a cadeia.

O fato é que XXXTentacion sempre foi diferente, e sempre teve dois lados. Se tornou famoso por suas letras agressivas, como em ”ImSipTeaInYoHood” e ”Take a Step Back”, mas reverteu essa fama para seu lado mais emocional, e para passar uma mensagem.

Em setembro de 2017, veio o primeiro clipe da carreira, justamente de ”Look at Me!”, e foi quando o mundo começou a prestar atenção nele. O clipe começava com a figura que todos tinham de X : ele causava baderna na sala de aula, batia no professor com um pinto de borracha e não ligava pro resto dos alunos. Mas nesse mesmo clipe, X performa “Vice City”, uma música sobre racismo, encena violência policial nos EUA, coloca em palco um garoto negro enforcando outra criança branca, e ainda manda um discurso sobre asa raças no país americano.

Nesse mesmo ano, foi lançado o álbum ”17”, de que falei no início, e isso me aproximou ainda mais do X. Por que ele era uma pessoa triste, e retratava isso nas suas letras. Me vem uma rápida comparação na cabeça, do emocore americano que faz sucesso na cena trap atual, e do emocore brasileiro, que teve seus dias de glória de 2008 à 2010. Bandas como Fresno, Hevo 84 e até mesmo o NX Zero, de certa forma também falavam das mesmas coisas que Lil Peep, X, e Lil Uzi Vert falam, só que com uma diferença. O Emo brasileiro sabia que tinha feito algo errado, se culpava, mas buscava soluções, buscava respostas, buscava maneiras de sair de tal situação. O trap-emo americano, se culpa, se julga, e não vê saída.

É importante tocar nesse assunto pois me faz lembrar do Lil Peep, que faleceu em Novembro de 2017. As músicas de Peep eram exatamente assim. Suas desilusões amorosas resultavam em tristeza, e essa tristeza o levava às drogas, que acabaram o matando. Quando Lil Peep morreu, parecia que eu tinha perdido um grande amigo, e tenho certeza de que não fui o único a me sentir assim. Suas letras eram humanas, seus problemas eram reais, e Peep não conseguia encarar eles de frente.

” Eu posso te levar lá, mas querida, você não vai voltar / Adoecendo por isso e eu não quero te deixar triste / Eu te assusto? Querida, você não me quer de volta?” 
Lil Peep, Save That Shit

 

X também. Ele falava muito sobre suicídio, de diversas formas. No começo, falava sobre tirar sua própria vida como um fim pra tudo que lhe aflingia, mas depois, o músico virou um grande conscientizador da juventude que sofria o mesmo que ele. E isso que torna o que aconteceu ontem (18) ainda mais triste.

Jahseh Onfroy, nome real do X, estava no auge de sua carreira. O álbum ”?” emplacou duas músicas no topo das paradas americanas, sendo elas ”Sad” e ”Changes”. O artista estava num momento iluminado, sempre passando mensagens positivas nas redes sociais, e incentivando seus fãs à não desistirem da vida.

Quando ele achou o equilíbrio de sua vida, ela acabou. Como eu já disse, X se envolveu em muitas confusões, chegou a ser preso, agredido no palco, agredido por outros artistas antes de um show; tinha uma lista grande de pessoas que não gostavam dele. Em diversas vezes ele chegou a falar que sua vida não duraria muito, assim como Peep já telegrafava em suas letras.

Agora eu consigo me sentir como o pessoal um pouco mais velho, que nos anos 90 perdeu grandes símbolos da juventude como Cazuza, Renato Russo e Kurt Cobain. Eu perdi Peep, X, e não quero imaginar quais serão os próximos.

O importante é que esses dois deixaram legados, e ainda vivem através de suas músicas. Basta olhar para a cena musical de hoje e ver quantos artistas se inspiraram nos dois, dos mais novatos até aos experientes como o produtor Diplo.

Obrigado Peep e X. Vocês falaram e continuarão falando por uma geração inteira.

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