Quando o céu da cidade de São Paulo ficou preto em plena tarde de uma segunda-feira, o escândalo e certo desespero da população foi imediato. Não demorou muito pra perceber que aquilo era muito mais do que uma questão de "Apocalipse" (bom, de certa forma é), e estava completamente relacionada com a maneira que lidamos com o meio ambiente e o consumismo desenfreado. Uma tarde escura foi o estopim para discussões internacionais e políticas sobre o descaso com a Amazônia, e mudanças foram tomadas nos poucos dias que se passaram (a custo de muito discussão e protestos, mas foram).

Agora, imagine se essa escuridão fosse permanente. O que mudaria na vida das pessoas de São Paulo, o caos que se tornaria a sociedade. Recife Frio, curta-metragem de 2009 dirigido por Kleber Mendonça Filho, aborda questões semelhantes, muito antes do aquecimento global ser atribuído à partidos políticos. 

Na história do falso documentário, um meteorito atinge a ensolarada e praiana cidade do Recife, no litoral de Pernambuco. Apesar da ciência, no curta, não confirmar nenhuma relação à queda do asteroide, a partir disso, o clima na cidade muda drasticamente, e Recife nunca mais vê o calor. As temperaturas não passam dos 20 graus, os dias são cinzas, moradores de rua morrem de hipotermia e pinguins (!!!) tomam as praias que antes eram lotadas por turistas. 

O absurdo e surreal sempre fizeram parte da cinegrafia de Mendonça Filho, e aqui transitam entre o famoso ''docu-drama'' até a galhofa total - mas extremamente bem pensada. Não só a temperatura muda na cidade, mas todas as relações étnicas e sociais caem por terra com o desequilíbrio da natureza. Por exemplo, o quarto da empregada, que muitas vezes beira o desumano por falta de ventilação e espaço extremamente pequeno, vira objeto de luxo para o filho de um casal classe média alta - afinal, por não ter janelas, a herança da senzala é mais quente do que o resto do apartamento de frente pro mar. Os papéis se invertem. A cultura também muda, com os produtores de artesanato regional colocando 'agasalhos' nos bonequinhos que antigamente vivam de sunga e biquínis. 

Aqui, Kleber Mendonça Filho tira o ser humana da sua posição dominadora da natureza e o coloca como simples marionete ou vítima dos efeitos colaterais causados por seus próprios atos. No falso documentário, a ciência não tem certeza se o meteoro tem relação com o frio que se instaurou na cidade, mas o fato é que esses dois acontecimentos foram suficientes pra virar o estilo de vida de ponta-cabeça.

Voltando ao tópico da São Paulo escura em plena tarde, o ser humano se sente e pode apenas aprender a conviver com as novas condições - foi assim durante toda a história da evolução da espécie, não é mesmo. Em Recife Frio, os cidadãos não tiveram chances de se preparar para o que viria e só puderam remediar os danos. Em São Paulo escura, ainda há a chance de fazer algo.

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