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Cultura Pop do mundo.

Euphoria (2019): relatos de uma adolescência conturbada

Muito tempo atrás eu disse que se Riverdale não fosse tão bobo e editado para o público infanto-juvenil, seria uma baita de uma série complexa e densa – até porque alguns dos temas tratados da maneira infantil de hoje permeiam por essas camadas mais sombrias e profundas (como sexualidade, gravidez na adolescência, abusos mentais, depressão e etc).

Eis que a HBO lança esse formato de série, e pra surpresa de muitos, consegue criar um drama adolescente de tamanha profundidade e falta de sutileza (ou vergonha, mesmo) de tratar de temas complicados – dependência química, homofobia, conservadorismo e até mesmo aborda a indústria da pornografia.A produção acompanha a jovem Rue (Zendaya, no melhor papel de sua carreira), que acabou de sair de uma clínica de reabilitação após uma overdose, e agora precisa decidir que caminho seguir em sua vida tomada pela ansiedade e outras perturbações. Ao mesmo tempo que Rue luta para se manter sóbria, conhece Jules (Hunter Schafer), garota trans que acaba de chegar na cidade, e seus sentimentos mais uma vez se desequilibram. Logo no primeiro episódio fica claro que essa não é mais uma bobajada feita pra um público específico, justamente quando Jules corta os pulsos numa festa em tom de ameaça.

A partir disso, a série começa a desenvolver diversas subtramas com os personagens secundários, que muitas vezes fogem da história principal que rola ali entre Rue e Jules, mas cria outras situações e possibilidades interessantes. A personagem Kat por exemplo, interpretada por Bárbara Ferreira, é um exemplo do quanto a série pode ser surpreendente em tocar em determinados assuntos e criar uma narrativa SOBRE adolescência em geral – claro, sempre usando a história principal como rota de direção.

DESCOBERTAS E DEPRESSÃO

É interessante a decisão dos diretores de criarem narrativas diversificada que no fim das contas falam sobre as mesmas coisas : descobertas e depressão. Cada episódio aprofunda e dá o famoso background pra personagens apresentados, contando em terceira pessoa sobre a infância, sonhos e traumas do personagem da vez do episódio.

Então todos aqui tem seus “momentos”, que ajudam o público a entender (ou deixar ainda mais confusos) algumas atitudes e comportamentos futuros. Algo em comum entre todas essas histórias é que sempre há um ponto de virada que os transformou de vez – temos a garota que engordou e passou a ser rejeitada, o garoto que descobriu que seu pai é um tanto quanto estranho, e claro, Rue, descobrindo as drogas da maneira mais mórbida possível. A personagem de Zendaya é uma das mais intrigantes e divisórias, digamos assim, já vistas em tramas adolescentes. É daquelas que o espectador passa do amor ao ódio em poucos instantes, e durante a primeira temporada ela é essa inconstante que gera empatia, piedade, raiva e até desgosto no público. Justamente por estar em reabilitação e viver num mundo que lhe “força a se dopar”, Rue vai e vem nas emoções, uma hora está feliz da vida e na outra não consegue criar coragem para ir ao banheiro devido à tamanha depressão. “Vai e vem”, diz ela sobre os próprios sentimentos ruins.

Um ponto alto nessa temporada sem dúvida é o episódio em que Rue implora por drogas ao seu traficante de sempre, Fezco, esse que nega de todas as maneiras, prezando pela sobriedade da amiga/cliente (?) que já passou por várias situações delicadas. Como uma pessoa pode chegar tão fundo no poço que até mesmo aqueles que a ‘ajudaram’ e colaboraram pra isso passem a se preocupar?

A própria relação entre Rue e Jules é uma verdadeira tempestade de sentimentos, que aos poucos vão se revelando ao mesmo tempo em que se embaralham. A química entre Zendaya e Schafer em cena é absurda, parece que as atrizes se conhecem a vida inteira. 

Mesmo sendo tão disruptiva e avessa á qualquer produção parecida, Euphoria usa de alguns clichês adolescentes justamente para fazer seu contraponto e subverter parâmetros e expectativas. Aqui temos o time de futebol americano com as líderes de torcida, o craque do time que namora a garota mais popular da escola, o tradicional baile onde todos os personagens se encontram. Todos esses conceitos batidos são usados como ferramenta de criação para outras ideias serem apresentadas, mais profundamente do que tratada em outras obras do gênero.

Como já citado anteriormente, a série trabalha muito bem com todos seus personagens, e apesar de ter poucos episódios na temporada (o que enxergo como uma coisa positiva), há tempo suficiente pra que cada um deles se desenvolva, evolua, sofra, e mude. Destaque para alguns :

Kat (Bárbara Ferreira)

A atriz que é filha de mãe brasileira cativou o público com sua personagem empoderada e ao mesmo tempo controversa. Kat começou a temporada virgem, e descobriu no sexo uma ferramente de controle, autoestima e até mesmo lucro financeiro, em streams de sites adultos. Em determinado momento, tamanho empoderamento e autoestima viram egoísmo, e Kat se torna uma pessoa totalmente diferente, o que acaba a afastando das amigas. Sem dúvidas uma das personagens mais interessantes dessa primeira temporada.

Cassie e Maddy

Ainda batendo na tecla de transformações de personagens, Cassie e Maddy fugiram totalmente dos clichês de namoradas de jogadores, e passaram por situações complicadas. Ambas foram vítimas de abusos por parte dos namoradas, tanto mental quanto físico. Não demorou muito para perceberem que estavam em uma relação abusiva, que não agregaria em nada. Curioso notar que no caso de Cassie, vemos o namorado McKay como um cara legal, que jamaias a faria mal (e não faz, no sentido físico). Porém, quando a situação fica complicada (sem spoillers), McKay ignora totalmente os sentimentos da namorada e pensa apenas no seu próprio bem estar e status social, forçando-a a fazer algo que não queria.

Já Maddy vai e volta com Nate, a pessoa mais tóxica que alguém poderia conhecer. Apesar de o desfecho dos dois não ter sido o esperado, abre espaço para diversas possibilidades na segunda temporada (que já foi confirmada)


Ao fim das contas, Euphoria foi uma das melhores surpresas no mundo da TV/Streaming desse ano, e prova de que a HBO é uma das melhores no que faz (apesar do final de certas séries). O serviço de assinatura vem embalado esse ano, com Chernobyl, Euphoria e em breve Watchmen. Na contra-mão do que faz a concorrente Netflix, a HBO dosa o tamanho e o período de lançamento de suas produções, visando sempre o melhor resultado em qualidade possível. A série comandada por Sam Levinson é inovadora de diversas maneiras, e merece vida longa e ser assistida por mais pessoas. É impressionante o número de porcarias que fazem sucesso nos serviços de streaming hoje em dia, e uma produção tão requintada e surpreendente como Euphoria não deveria ficar de fora do radar do mainstream. Afinal, as MENSAGENS que carrega em si são grandes demais para ficarem limitadas à um pequeno grupo de espectadores. Por mais episódios, e por mais séries disruptivas.

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