Não existem rótulos que se possa dar hoje à música da Fresno. Talvez o único adequado seja "intenso", pois em questão de musicalidade, não dá pra chamar o som feito pela banda de rock, pop-rock, emocore ou qualquer outra categoria. Desde sempre a banda formada em Porto Alegre inovou e variou, e ao longo dos até então sete álbuns, o público foi se readaptando aos novos 'estilos' adotados pelo grupo. O fato de ter fãs super fiéis facilitou pra diversas transições, como no EP Cemitério das Boas Intenções, com guitarras agressivas e letras pesadas; e no mais recente A Sinfonia de Tudo que Há, um álbum quase sinfônico, como entrega o nome.

Agora, a Fresno chega em seu oitavo álbum, sua alegria foi cancelada (no minúsculo mesmo), talvez mais confiante do que nunca, ou pelo menos mais madura. Dentro do próprio álbum existem diversas experimentações e variações de sonoridade, mas que seguem uniformemente um contexto de aprendizado, esperança, resistência e reinvenção apresentado nas letras ao longo das 10 faixas. Graças ao desprendimento com padrões de mídia ou a preocupação de criar algo que agrade o grande público, esse álbum é em essência uma explosão de sentimentos, daquela que só é impossível fugir não prestando atenção nas músicas. Um trecho de "Quando eu caí", umas das faixas mais emocionantes e carregadas do álbum, diz justamente isso; " Não faz sentido se você não sentir".

Em "O Arrocha Mais Triste do Mundo" , se faz uma brincadeira no título aos sucessos que hoje tocam nas rádios e televisões, carregando uma falsa (ou superficial) mensagem de tristeza. Aqui, justamente por isso, a "tristeza" exposta na letra é muito além de uma desilusão amorosa ou algo do tipo (que também eram temas comuns nos primórdios da Fresno). É uma tristeza em relação ao mundo, em relação as pessoas que não aceitam as outras do jeito que elas são.

"Você não será a primeira a tentar me mudar". Um pensamento sobre decepção e até mesmo fracasso, porém evoluído, visto mais profundamente e de um jeito mais crítico.

Já em "Sua Alegria foi Cancelada", faixa que dá título ao álbum, temos aquela tristeza emo clássica, mas novamente refinada, e sem ser explicitamente sobre um caso amoroso. Pode ser apenas sobre alguém que foi embora e levou toda a alegria que havia antes. Sintetizadores ajudam a criar essa sensação de vazio, eco, uma ambientação que chega a ser desagradável e que dão ainda mais intensidade ao que a letra dividida entre Lucas Silveira e Jade Baraldo quer dizer.

"O medo não me deixa prosseguir."

Quando a banda decide falar sobre política, mesmo que sutilmente, acertam em cheio justamente por enfocar mais no lado humano, das pessoas que estão no meio dessa guerra ideológica e querem reagir de algum jeito. "Convicção" e "We'll Fight Together" são as duas faixas mais pesadas do álbum, uma verdadeira porrada sonora.

"Você se acha forte mas não sabe o quanto dói se reerguer."

O grande mérito do álbum é justamente transitar entre estilos e temas com uma sutileza incrível. "De Verdade" é lenta, amorosa e esperançosa. Enquanto "Cada Acidente", com Tuyo, é um verdadeiro hit pop - e isso é excelente. O refrão fica na cabeça, e o dueto de vozes é tão agradável que é impossível ouvir uma só vez.


Sua Alegria Foi Cancelada, além de ser uma das melhores coisas lançadas no ano de 2019, prova mais uma vez a diversidade da Fresno, e a capacidade que a banda tem de se reinventar, nunca ficando presa à rótulos. Demorou três anos, mas a espera valeu totalmente a pena. Os fãs vão adorar, e quem ainda tem preconceito com a banda, vai pensar duas vezes antes de abrir a boca.

Fechar Menu