O que mantém uma banda viva? O que a deixa no radar e na mente do público mesmo após mais de 20 anos de estrada ?

Talvez nostalgia, saudosismo ou a difícil capacidade de se reinventar. No caso do Slipknot, os motivos são vários. A banda constituída por nove membros sombriamente mascarados virou algo além de pop, icônico. Até os mais desligados do universo do rock e metal os conhecem, por algum dos diversos motivos que tornou a banda um fenômeno cultural do novo século.

Após uma pausa de mais de três anos, o Slipknot volta com força total, novas máscaras e uma reinvenção musical totalmente pautada no "auto-conhecimento" da banda, e a partir disso evoluir, revisitar e desconstruir conceitos de estéticas que se tornaram característicos do grupo. Muito se criticou dos dois últimos álbuns (All Hope is Gone, de 2008; e The Grey Chapter de 2014) pelo fato do som não trazer muitas coisas novas em relação aos anteriores, com alguns fãs e críticos mais radicais acusando a banda de se auto plagiar, apertando repetidamente nas teclas do passado e apostando no que deu certo. A capacidade de composição de Corey Taylor é algo impressionante, e parece sempre ter algo importante a dizer, algo que ninguém mais está falando dentro do mundo da música, tem sido assim desde os primórdios da banda. Porém, o cansaço do tempo foi um dos principais motivos dos últimos álbuns serem diminuídos em relação aos outros, por ter letras que tentam revisitar o passado de glórias, e ser "pesado" apenas por estilo, e não por necessidade de transformar sentimentos de angústia, dor ou seja o que estava sendo cantado, em peso sonoro. 

Talvez por causa disso a pausa de 2015 se fez tão importante, para refrescar as ideias e voltar com força total (de todas as maneiras) no esperado We Are Not Your Kind

A promessa de Corey Taylor (vocalista) era de entregar um álbum tão pesado quanto iowa (2001), álbum que fez o Slipknot explodir de vez no mundo do metal. Taylor não mentiu quanto sua promessa, e além de trazer junto com os outros oito integrantes as características tão marcantes e únicas da banda, abre espaço para alguma experimentação por parte do DJ Sid Wilson e o sampler Craig Jones, principalmente nas faixas de interlúdio (Insert Coin, Death Because of Death e Whats Next). Os dois são uma espécie de fio condutor para o álbum todo, guiando a sonoridade seja através da ambientação, de timbres parecidos que estão ocultos a primeira vista mas que fazem toda a diferença quando se ouve a obra na ordem original. My Pain, por exemplo, é quase que totalmente comandada por Sid e Craig, já perto do final do álbum, preparando-se para o grande clímax. 

A melodia misturada com os guturais de Taylor se tornaram marca registrado do Slipknot, e aqui a entrega de grandes refrões que ficam na cabeça foi realizada com sucesso, talvez essa a maior comparação com o álbum Iowa que deixou refrões simplesmente icônicos (People Shit; Left Behind, My Plague, entre outros). 

Aqui os grandes astros que serão lembrados e cantados juntos nos shows provavelmente serão Unsainted, a primeira música divulgada desse novo álbum; Orphan e Spiders, essa última sendo uma das mais interessantes do álbum. A atmosfera de filme de terror, com um pianinho sempre dando o ritmo à bateria e ao baixo juntos com o verso principal repetida algumas vezes criam uma mistura de sensações e uma vibe diferente do que se espera de uma banda de peso como o Slipknot. Porém, a ideia aqui é que o peso venha de outras formas, não só através de uma bateria metranca ou guitarras vibrantes. A própria atmosfera da música transmite esse 'peso', essa vibração de que algo está errado. Ainda mais com um solo de guitarra totalmente distorcido e cheio de sintetizadores, acompanhado de um baixo com groove absurdo (Alessando Venturella parece ter encaixado perfeitamente com o resto do grupo, Paul Gray ficaria orgulhoso).

Outro ponto interessante de se notar são os riffs e as composições entre as duas guitarras. Parece que Jim Root e Mick Thomson retomaram a boa criatividade e criam verdadeiras porradas com os acordes, partindo para o melódico algumas vezes, sem perder de vista o propósito da música e do complexo de sonoridade, nunca criando acordes de determinada maneira apenas por serem "legais" ou "grudentos"; tudo conversa com tudo, há uma harmonia tremenda até mesmo nas faixas mais pesadas.

We Are Not Your Kind tem tudo aquilo que faz o Slipknot original, especial e icônico. Uma narrativa completa, pesada e brutal quando precisa ser, mas também transitando entre faixas mais calmas (A Liar's Funeral), os interlúdios e sempre com letras profundas e refrões marcantes. Entra fácil no hall de melhores álbuns da banda e também do ano, provando mais uma vez que a banda está mais vida do que nunca.

Fechar Menu