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Roma (2018): o drama de uma vida real

Ao atingir certo auge da carreira, alguns diretores podem se dar ao luxo de fazer o tipo de filme que quiserem. O mexicano Alfonso Cuáron se deu a esse prazer após 5 anos de ganhar o Oscar de Melhor Diretor por Gravidade (2013). Há quem diga que Cuáron é o ”Kubrick da atualidade”, pois o diretor transitou por diversos gêneros e linguagens cinematográficas, e em todas elas se saiu bem e imprimiu sua assinatura. Ora, alguém que consegue fazer um ótimo filme da saga Harry Potter e anos depois ser aplaudido por um suspense espacial merece, no mínimo, um lugar de respeito no hall da fama audiovisual. 

Em 2018, Cuáron voltou a ativa de melhor forma possível, com o longa-metragem “Roma”, ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza, produzido e distribuído por, quem diria, a Netflix. Roma é a a junção perfeita de todas as experiências e aprendizados do diretor mexicano, tanto na vida, quanto na arte. 

O filme se passa no bairro de Roma, que fica no México, e acompanha a vida da empregada e babá Cleo na casa seus patrões, pais de 4 crianças de diferentes idades. Ao final do longa, Alfonso Cuáron o dedica à Libo, uma empregada de verdade que trabalhou em sua casa durante sua juventude, e segundo ele, lhe ensinou muitas coisas. Ao mesmo tempo, é uma dedicatória ao seu período trabalhando em hollywood com os grandes, e se tornando um grande. Como disse o Tiago Belloti do canal Meus 2 Centavos, “Roma é uma aula de cinema”. Pode ser um filme de baixo orçamento, preto e branco, sem efeitos especiais ou técnicas mirabolantes, mas não é um filme que qualquer um seria capaz de fazer, sem ter uma grande bagagem de conhecimento consigo.

Cuáron escreveu, dirigiu e, já que seu diretor de fotografia habitual estava com a agenda cheia, ele mesmo ‘fotografou’ a película. E que trabalho majestoso. Sendo assim, é impossível não atribuir a maioria dos méritos à ele. Roma, o tempo todo, tem uma sensação de que algo está fora do lugar, disforme, isso representado de forma muito sútil, através dos pequenos atos e expressões dos personagens que habitam a tela. Há muita inspiração nas obras de Ingmar Bergman, Federrico Fellini, gênios que transformavam suas memórias e elementos do cotidiano em grandes histórias.

Alguns andam criticando Roma por não ter um grande foco na trama, ou não apontar a direção para a qual vai, mas isso na verdade é maravilhoso. Justamente por não dar margem de especulação ao público, toda e qualquer ‘surpresa’ ou acontecimento repentino criam nervosismo e viram a história para outra direção. Alfred Hitchcok defendia que o cinema não deveria ser semelhante á realidade, e preocupações com verossimilhança são tolices que os cineastas não devem dar ouvidos. Roma escolhe o caminho do realismo no roteiro, mas tem fugas pontuais, indícios que são quase prefácios para o que acontecerá a seguir na trama, como um homem vestido de bicho-papão cantando em meio a um incêndio.

O fato é que este já é um dos melhores filmes do ano, sem dúvidas o melhor já lançado exclusivamente pela Netflix. Esta é a prova de que não existe drama maior que a vida real, e nenhuma história de ficção pode superar as que acontecem de verdade, diariamente.

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