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Sepultura dá aula e mostra porquê é uma das maiores bandas da história

Impressionante como mesmo depois de quase 40 anos de banda, o Sepultura continua se reinventando, e não só isso – sendo vanguarda no mundo do metal.

Carta branca para inovar. Esse é o sentimento de Quadra, novo álbum de estúdio do Sepultura. Somente uma banda que revolucionou e contribuiu de tal maneira para o cenário musical pode ter essa liberdade de explorar novas sonoridades, sem medo do julgamento. Julgamento esse que vem pré concebido desde a época da saída de Max Cavalera, onde os fãs literalmente se dividiram em dois grupos – os que seguiram Max e Iggor, e os que seguiram Andreas e Paulo.

Dói ver como mais de 20 anos após a separação da banda, ainda existe essa imbecilidade de comparação, principalmente com o vocalista Derrick Green. Há tempos Green se mostra parte intrínseca dessa nova história do Sepultura, e para não reconhecer seu talento vocal era necessário ter a cabeça muito fechada para a música, ou se preferir, ser do famoso grupo “As Viúvas dos Cavalera”. Pois é. No antecessor “Machine Messiah” (2017) e agora de novo em “Quadra”, Derrick dá um tapa na cara dos fãs chatos e birrentos, com sua inquestionável variedade vocal, partindo do puro gutural trash, pra canções mais melódicas, graves e lentas.

No período que antecedeu o lançamento do álbum, uma polêmica se criou em volta da banda e Glória Cavalera, esposa de Max, sobre uma possível reunião entre os irmãos com o Sepultura. Glória esperneou, fez chilique nas redes sociais defendendo o marido, mas sejamos sinceros, os Cavalera precisam muito mais do Sepultura do que o contrário. Andreas e Paulo não pararam no tempo, e sim buscaram coisas novas a se fazer, territórios não explorados. Eloy Casagrande traz um frescor pra todo esse trabalho, com uma atuação feroz na bateria que com certeza ficará marcada para toda história da música – o cara é simplesmente inexplicável com as baquetas. Há tempos o Sepultura vem criando discos conceituais, com linhas narrativas, e isso se firmou ainda mais com a agora considerada saga que começou em “Machine Messiah”, já que esse novo álbum é praticamente uma sequência dele. Mas não uma sequência qualquer. É como se fosse “O Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan, uma continuação que vai além e eleva à máxima potência tudo que foi apresentado na obra anterior, que também é excelente.

Fazer essa comparação é algo ingrato, e não significa que se está desmerecendo as bandas, mas basta pegar os últimos trabalhos do chamado “Big Four” do Trash Metal norte-americano (Metallica, Slayer, Megadeth e Antrax) e comparar com os últimos do Sepultura. Novamente a história de não parar no tempo. Não, isso não é uma crítica a essas bandas, mas serve pra exaltar o quão importante é esse momento da banda Brasileira. Se nos anos 80/90 o Sepultura fez o mundo todo voltar seus olhos pro Brasil e praticamente refinou o que se tinha até então de trash/Groove metal (há quem diga que foram precursores do polêmico New Metal, mas isso fica pra outro texto); em 2020, “Quadra” faz isso de novo, inovando desde o próprio conceito do álbum dividido em quatro partes (diferentes entre si, mas ainda sim coerentes como um todo) até mesmo nas linhas de texto, nos riffs geniais e na percussão brutal.

A banda não ficou na sua zona de conforto de simplesmente fazer músicas pesadas e se fingir de bravos com alguma coisa, como certas pessoas pensam que é o heavy metal. Foi muito além disso, buscou o que se há de novo e de melhor, e incorporou com tudo que os tornou populares e revolucionários.

Quadra é uma viagem pelo tempo, pelo próprio estilo musical e todas as suas variações. Uma viagem guiada por mestres que já percorreram esse caminho anos atrás e agora nos levam rumo ao inexplorado, ao curioso.