Eu tentei saber o mínimo possível sobre 'Us' antes de finalmente sentar na poltrona do cinema e assistir às duas horas de filme. O que foi o extremo oposto de "Corra" (2017), primeiro filme do diretor Jordan Peele, em que fui assistir com uma expectativa tremenda devido às críticas e reações do público, mas quando assisti pela primeira vez não achei tudo aquilo - apesar de que pouco tempo depois percebi o quão bom é o filme.

Aqui, Peele volta às histórias de horror e suspense, mas para ficar, cravar seu nome como um expoente do gênero. Expoente subversivo, esse. Us (Nós) usa de diversos conceitos clichês de filmes de terror para em seguida quebrá-los ou até mesmo tirar uma onda com a expectativa do público. Uma família vai passar as férias numa casa de praia, quando cópias macabras deles próprios aparecem para matá-los. Logo de cara a ideia de estar longe de casa traz um certo desconforto para o público (Corra também utilizou desse artifício), e essa é a sensação que permanece até o final do filme ao espectador : tá tudo errado, e não há uma maneira clara de tudo ficar bem. Quando começam os ataques dos 'clones', o espectador está praticamente cego. Não sabe o que está acontecendo, por que está acontecendo, e aonde tudo aquilo vai parar. O senso de imprevisibilidade deveria ser algo essencial para todo filme,mas nós sabemos como funciona hoje em dia, e todos os filmes parecem óbvios desde o princípio (mas exatamente os blockbusters).

Juntamente com isso, vem a capacidade do filme de prender o espectador. Afinal, não fazemos a mínima ideia do que está acontecendo, e precisamos de explicações, o que torna a história ainda mais interessante para qualquer um. Ponto negativo nisso é a quantidade diálogos expositivos, quando um personagem literalmente para o que está fazendo para contar uma história ou dar uma explicação. Já dizia o mestre do suspense Alfred Hitchcok : não me fale, me mostre. Aqui existe os dois casos. Se por um lado os diálogos expositivos possam ser exagerados (apesar de funcionarem para prender mais ainda a atenção); os flashbacks são precisos, colocados em momentos exatos para explicar ou dar ainda mais dúvida. O final do filme tem muito disso, e justamente por esse fator que ele é tão impactante.

Resta ressaltar a capacidade de "Us" e do trabalho de Peele em si de levar a experiência cinematográfica para além das duas horas de tela. Teorias, discussões, e a vontade de re-assistir ao filme para analisar melhor alguns pontos surgem quase instantaneamente,e é difícil terminar de assistir e não parar para pensar em alguma coisa sobre a história. Extra-filme. Todo o simbolismo construído durante o filme (os coelhos, as pessoas de mãos dadas, a passagem da Bíblia) dão mais profundidade à pesquisa de compreensão pós-filme, e as ligações que tentamos fazer com o plot do final com o resto da história em si.

"Nós" é uma experiência cinematográfica que brinca com o espectador o tempo todo, propõe uma loucura e te faz aceitar e discuti-lá como real ou plausível, além de intrigar o tempo todo. Jordan Peele mostra uma singularidade e começa a lançar marcas-registradas de seus trabalhos, certo padrão de qualidade que empolga para o que virá a seguir. NOTA 8/10.


PS : O incrível Gabriel Guariglia conseguiu prever o plot-twist do filme enquanto assistia do meu lado. Parabéns por isso.

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